O futebol está doente, e querem culpar o termómetro!

O futebol passa por um momento estranho: enquanto os países se vão endireitando depois das crises económicas, e agora da saúde, o jogo parece já ter passado por melhores dias. Enquanto o mundo vai evoluindo com as revoluções iniciadas pelas figuras mais inteligentes e criativas, dentro do campo de futebol, há uma subvalorização evidente das competências técnicas, da inteligência, da criatividade.  Um pouco por todo mundo, há quem se queixe da falta de virtuosos no futebol, e que estão em extinção os grandes craques que marcaram o futebol com unanimidade – já não há tantos jogadores de nível altíssimo no futebol profissional. Assim é nas equipas africanas, na América do Sul ou na Europa. Como é óbvio, há sempre exceções. Há países que tentam contrariar a lógica instalada pela industrialização do jogo, que tem como grande propósito formar, perdão, formatar jogadores em massa.  Sai mais barato mecanizar o processo, e ninguém precisa de pensar muito sobre isso porque os parâmetros estão todos pré-concebidos; mas, o resultado até ao momento é uma crescente degradação dos jogos que passam nas nossas televisões. O perigo de desconsiderar a individualidade e de criar modelos que ignoram o nome da pessoa que vai estar sujeita aos procedimentos é demasiado evidente.  A título de exemplo, quando se olha para os futebolistas africanos, pelo seu potencial morfológico brutal, o estímulo que lhes é oferecido é o de resolver os problemas do jogo com base na força. Se eles são fortes, então que façam da força a sua maior arma. Parece fazer sentido, mas há um pequeno problema: o futebol é um jogo, fundamentalmente, cognitivo. As tarefas a que o jogo desafia os jogadores são complexas. Há relações com as regras do jogo, há o problema de só haver uma bola, há colegas com quem partilhar os desafios que vão aparecendo, e ainda há um adversário (não um, mas onze). Parece-me claro que se está a desperdiçar uma grande vantagem em potencial – o perfil morfológico – para se tipificar os jogadores em nome de benefícios circunstanciais.  Cada um de nós tem um crescimento potenciado pelos fatores ambientais, e sobretudo pelos casos de sucesso à nossa volta. No meu caso, despertei para a profissão que ambicionava com José Mourinho, e para uma maior profundidade naquilo que observava nos jogos com Guardiola, Jorge Jesus e Vítor Pereira. Outros seguiram-se, mas foi aí que eu acordei para o meu futebol. Se tivesse seguido o caminho da industrialização, provavelmente não estaria a falar convosco hoje, nem teria as capacidades que desenvolvi no meu percurso. Eu tenho um nome! E o meu nome tem particularidades que nenhum outro tem. É a partir dessas particularidades que se deve desenvolver um processo de aprendizagem e de formação da personalidade, para que essa bagagem se possa transformar em competência técnica, sem coartar a liberdade e, com isso, a criatividade.  Tenho para mim que o futebol está doente, e que lhe faltam artistas que nos alegravam as tardes, as noites, e as semanas seguintes com a forma subtil como resolviam os problemas do jogo. Mas os jogadores de hoje, que são o termómetro deste novo futebol, são os menos culpados. Não adianta achar que o problema está no instrumento de medição quando esse apenas reflete o nosso estado de enfermidade.  O Autor Blessing Lumueno é natural de Luanda. Atualmente, o treinador de futebol angolano trabalha no escalão de sub19 do Grupo Desportivo Estoril-Praia. É também cronista do Expresso, e comentador desportivo na TSF e, em breve, na RTP.