MEMÓRIA: Manu Dibango… a Música CONTINUA

Foi uma das primeiras vítimas mediáticas da COVID-19 e a tristeza abalou o mundo, principalmente no continente-casa. Manu Dibango faleceu a 24 de Março, aos 85 anos, mas a sua vida e obra merecem continuar a ser celebradas. Principalmente, por quem com ele trabalhou e partilhou a alegria da criatividade espontânea e do improviso de estúdio. Moreira Chonguiça, saxofonista moçambicano e um dos maiores artistas africanos, falou connosco sobre o regresso aos palcos possíveis, após a morte do mentor. E de como a festa da música africana permitirá manter a memória de Manu sempre próxima e empolgante, mesmo nestes tempos imprevisíveis.
Sobre a pandemia…
‘Não temos como não nos adaptar a esta nova realidade, mas essa é uma das partes mais triste. Os artistas, os músicos vivem da interação com o público, dependemos desse calor, dessa vibração, e online, à distância, simplesmente não é nem uma aproximação dessa magia. Sabemos apenas que o mundo não vai ser igual e que a evolução do vírus permitiu duvidar de algumas indicações, mas muitos comportamentos irresponsáveis continuam. Acho que ainda vamos dançar por causa do vírus… Também tenho dados aulas online para o Hancock Institute of Jazz e vamo-nos readaptando às circunstâncias. Acho que todos perguntamos: qual é o futuro?

Sobre a morte de Manu Dibango
‘Era bigger than life, com um espírito contagiante, a voz grave, o grande sorriso e aquele carisma. Ele era universal, o meu pai, o meu papa Manu. A maior tristeza da sua morte durante a pandemia foi não puder estar no funeral. Foi injusto ele ter ido desta maneira e não puder despedir-me como devia ser não ajuda ao luto. Ele ensinou e inovou, seja pelo ‘Soul Makossa’ que tantos conhecem, seja pelas horas que passámos em estúdio na gravação do disco [‘M&M’, 2017, Moreira Chonguiça & Manu Dibango]. Ele estará connosco quando subimos ao palco ou em qualquer outro lado.’
Sobre o concerto de homenagem, transmitido na TV5Monde
‘O concerto foi gravado no início de Junho, no estúdio Ferber [Paris], que foi onde eu e o Manu gravámos o disco. Não pude lá estar devido às restrições, mas gravei aqui em casa, em Moçambique, acompanhado pela mbira, É a melhor homenagem possível ao Manu Dibango, com música, alegria, união e saudades do ‘Leão de África’ que sempre recordaremos’.

L’Afrique fête la musique’ foi um concerto transmitido na TV5Monde e na Africa Radio a 21 de Junho, gravado em França e em vários locais do globo (devido às limitações de viagens), com mais de 30 artistas africanos. Foi a primeira atuação da Orquestra Manu Dibango após a morte do carismático líder, numa celebração da vida e obra do criador de ‘Soul Makossa’.
O Autor

Moreira Chonguiça é um dos artistas moçambicanos mais internacionais e um dos mais reconhecidos saxofonistas do mundo. Em 2010, criou o Morejazz Festival (em Maputo) e é também o líder de uma orquestra de jovens talentos nacionais: a Moreira Chonguiça Orchestra.